Café e Cerveja

Segunda feira, sete horas da manhã, o despertador toca. Se eu por no soneca vou ter que deixar de tomar banho pra dar tempo de chegar ao trabalho, melhor levantar. Acho que vou tomar um café pra acordar direito. Trânsito, diversas moscas mortas dirigindo como se estivesse de férias, procurando o endereço da casa de campo na cidade onde nunca esteve enquanto tentamos desesperadamente achar uma brecha pra ultrapassagem que não aparece nunca. Finalmente na empresa, máquina de ponto quebrada, vou ter que anotar ocorrência, lembrar o horário que cheguei, assinar papel com justificativa. Senta em frente ao computador, abre o aplicativo de e-mail, onze mensagens dizendo que os vídeos aprovados na sexta feira agora têm alteração e precisam ser refeitos. Acho que vou tomar outro café pra fazer o serviço render.

O dia segue naquela loucura. Refação após refação, almoço que atrasa por conta de prazo, filas no restaurante, erram o ponto da carne, acabou o suco de laranja. Horas extras depois e finalmente vamos embora. Um ser que não deveria nem ao menos ter CNH estaciona torto na vaga ao lado e preciso de dezoito manobras a mais pra sair da vaga que entrei com duas. É… Acho que preciso parar em um bar, tomar uma pra passar o cansaço desse dia, a famosa Happy hour. Aquela cerveja marota pra esquecer dos problemas todos que passei ao longo do dia.

No mundo moderno somos movidos à café e álcool. Quando eu era um pirralho pouco maior que um hobbit, meus pais sempre diziam: “Não toma isso, moleque. Isso é bebida de adulto”. Valia para o café e pra cerveja também. Sempre fiquei na curiosidade. Anos se passaram e finalmente tive o alvará pra provar aqueles elixires que ventilaram a curiosidade durante toda a infância. Mal sabia eu que café e cerveja eram na verdade uma necessidade da vida adulta. Agora aos meus 35 anos, já tendo passado por diversos empregos em carreiras diferentes, ainda em estágios de mudanças, cursos atrás de cursos, boletos após boletos, arrisco dizer que a qualidade dessas duas bebidas está intimamente ligada à carga de stress que passamos.

O rapaz é um chapa, vai acordar as 5h da manhã pra descarregar um caminhão. Serviço pesado, mas não tem muito o que dar merda ali, no máximo derrubar uma caixa. Ele acorda, toma aquele cafézinho passado no coador, provavelmente vai levar a garrafa pra tomar o restante ao longo do dia. Ao final do seu turno, terminando em horário pontual, senta no bar e toma aquela Bavária gelada. Beleza!

O outro é CEO de uma gigante multinacional. Mal levantou da cama e já tem zilhões de e-mails com problemas a resolver capazes de decidir a vida de diversas famílias dos funcionários que ali trabalham. Uma decisão errada e a empresa quebra. Melhor passar aquele Kopi Lowak na cafeteira de bronze. Ele não tem hora extra, mas trabalha até mais que qualquer outro, pois leva as decisões todas da empresa nas costas. Final do dia é com prazer que abre aquela Thomas Hardy’s Ale já há algum tempo guardada esperando um momento especial.

Café é o combustível, cerveja a recompensa. Não acredito que seja uma questão de status ou poder de compra, apenas o nível de intensidade do que necessitamos. Do Utam ao café civeta, da Bavária à Thomas Hardy’s, Há dias que corremos contra o tempo numa luta frenética para alcançar a perfeição, em outros podemos acordar mais tarde e temos prazos mais flexíveis. Hoje estou mais tranquilo, trabalhos entregues e não teremos horas extras. O espresso de máquina na empresa e uma Heineken após o expediente já devem ser suficientes…

Artigo publicado originalmente na revista “Cerveja de Todos os Jeitos” em Julho de 2018.

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Fred Banionis

Sommelier, homebrewer, bartender, barista, fotógrafo, motion designer e nas horas vagas ser humano.

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